quinta-feira, maio 19, 2005

Rolhas, Portugal e afins...

... Faz agora uma semana que eu e outros enólogos portugueses estivemos como júris no International Wine Chalenge, em Londres. Apesar de ter provado "grandes bombas", ter tido bons momentos e também "pegas" de prova com provadores de todo o mundo, há uma situação que não me sai da cabeça. Um deste enólogos portugueses estava numa mesa de prova onde apareceu um vinho "rolhado", expressão utilizada frequentemente de forma ligeira para descrever o aroma dos cloroanisois (TCA, TeCA e PCA), no qual ele, muito bem, utilizou um termo técnico bem mais apropriado, advocando que cheirava a TCA (o cloroanisol de maior relevo). Os restantes provadores utizaram a expressão "it's corked", tendo a infelicidade do vinho apresentar um gargalo para cápsula de metal, sendo portanto impossível que a origem do aroma fosse a rolha. O nosso caro enólogo tuga fez questão de "gozar o prato" e de lhes demonstrar o evidente, seguido-se um pequeno sermão sobre a leviendade com que se utiliza o termo "rolhado" e que os termos TCA ou mofo serão, talvez, mais adequados.

Porquê toda esta defesa do "bom nome" da rolha?


Portugal possui cerca de 33% dos montados de sobreiro do Mundo e produz 52% da cortiça mundial seguido pela Espanha com 23% e 32%, respectivamente. Logo, qualquer ataque à rolha é um ataque frontal à indústria corticeira portuguesa e por acréscimo a Portugal.
É um facto que existem problemas de contaminação de vinhos por rolhas que têm TCA. O número apurado ronda os 2 a 5%, segundo várias fontes. No entanto, produtores como a Amorim (o maior produtor de rolhas a nível mundial) afirmam que nos testes internos o valor de rolhas contaminadas ronda os 0,45%.

É também um facto que existem outras fontes de TCA no processo de produção. As barricas podem ser uma grande fonte de TCA se não existir o cuidado de não utilizar detergentes clorados. Todas as madeiras da adega, cinchos de prensas, telhados em madeira, podem ser fonte de contaminação. Deste modo, é possível que muitos dos vinhos com TCA não encontrem a sua origem na rolha.

A presença deste aroma a mofo criou o pretexto para o aparecimento de vedantes alternativos que garantem inoquidade: os vedantes plásticos (polymer stoppers), as cápsulas metálicas (srew caps) e também o vedante em vidro, este último com pequena incidência.

Os vedantes plásticos foram tão rapidamente abraçados como abandonados por alguns países do novo mundo vitícola, tal como a Austrália. Este país acabou por adoptar, baseado em estudo científicos, a cápsula metálica para tintos jovens, brancos e rosés; e a rolha técnica ou a rolha para os restantes.

No entanto, o consumo dos polymer stoppers é crescente na velha Europa.

Quanto a mim, sou mais fã das rolhas. Quer por ser português(ok, é uma razão um pouco facciosa), quer por achar que o produto "vinho" vende mais do que apenas o líquido; vende também o acumular de tradições e de costumes. Já o afamado D. Perignon usava a rolha de cortiça e ainda não existia o dito "novo mundo" e todos os seus países. A rolha, além de ser um produto natural, acompanha o conceito de vinho engarrafado desde sempre e tenho pouca vontade de o beber quer com cápsulas, polímeros, ou - não tarda nada - dentro de uma lata.

Resumindo e concluindo: espero que as rolhas se mantenham para quando estiver sentado à lareira com a namorada, mulher ou amigos, e chegar o alegre momento de beber um Douro (como quem diz outro qualquer), onde o som de abertura seja um tradicional "pop" em vez de um esfregulhar metálico "acocacolado" de uma cápsula.

PS. Não posso deixar de dar os parabéns à Herdade da Malhadinha pelo seu Ouro e Red Portuguese Trophy, no vinho Malhadinha, no seu primeiro ano de produção.

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