segunda-feira, maio 16, 2005

"Os magníficos Borgonha"

Nestas últimas semanas esteve nos “mupis” do País uma campanha a um vinho da Região do Dão e outro do Alentejo. Tanto uma como outra, são já duas marcas bem conhecidas dos enófilos. O vinho publicitado do Dão, um colheita seleccionada, é já um dos vinhos desta região que em poucos anos atingiu o patamar de referência na gama de vinhos dos €3. Sobre a Região Demarcada do Dão, em 1900, Cincinato da Costa no Portugal Vínicola, escrevia que esta região, uma das preveligiadas do Reino, era capaz da produção de vinhos magníficos, capitosos e aromáticos de longa e segura conservação, semelhantes aos bons da Borgonha. Nos últimos tempos o Dão foi inserido no grupo das regiões mal amadas do País, talvez pela hegemonia do Alentejo e do Douro, ou talvez pela influência que as cooperativas da região tiveram durante cerca de 30 anos, provocando uma quebra muito significativa na qualidade dos vinhos que sempre foram tidos como referência de qualidade e longevidade. Um hiato, que afastou esta região do gosto do consumidor moderno, tem ainda hoje um perfil de vinhos caracterizado pela dureza da acidez e a sensação de secura transmitida pelos taninos verdes (como quando trincamos uma banana verde). Terá sido negligência por parte de quem geria a região, ou talvez a simples ignorância dos factores determinantes de maturação das uvas e possivelmente práticas enológicas e de vinificação inadequadas ao estado de maturação da matéria prima. A verdade é que, no Dão existem e sempre existiram vinhos “haute de gamme” como os magníficos da Borgonha, o problema sempre esteve na gama de entrada! O vinho publicitado é sem dúvida um exemplo de sucesso, vinho proveniente de uma região mal amada, que arrisca colocar no mercado colheitas bastantes recentes, para uma região que normalmente obriga a reservar os seus vinhos na cave, devido à rusticidade dos taninos que vem apresentando. Será este vinho, um DÃO!
por Hélder Cunha

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