segunda-feira, maio 30, 2005

Para não ficarem com a ideia que só o mac é que prova as "bombas", cá vai uma boa proposta para procurarem na vossa garrafeira!

Vinho: Marquês de Borba Reserva 2000

Produtor: João Portugal Ramos

Região: Alentejo - Estremoz

Aspecto: Cor ruby intensa

Aroma: Couro no ataque, ameixa madura, pimento e pimenta verde por trás, termina com chocolate e um toque de café

Paladar: Muito macio na entrada, com volume e intensidade, tem uma acidez picante e no retronasal aparece o couro, é longo e vinoso, nota-se os 14% de alcoól, fica no final figo seco e noz.

Apreciação Global: É um vinho poderoso, é muito complexo no aroma. É equilibrado, notando-se um pouco no final o alcoól. É um vinho com várias dimensões e muito internacional.

Nota: 17,8

terça-feira, maio 24, 2005

Simples e refrescante…

Ontem fui ao cinema e durante aqueles minutos antes das apresentações dos filmes, existem sempre alguns anúncios, um deles é aquele do perfume Aqua di Gió (que agora até nem tem aparecido), penso que muitos devem reconhecer. Pois é, ontem um dos anúncios, (no qual quem o encomendou deve ter gasto umas “massas” na campanha pelo menos pela duração que tem), começava com 1 miúda e 2 gajos a saltarem para a água. Depois, mostra uma série de situações de férias, algumas com chuva, mas sempre malta nova na “galhofa”! Pelo meio vai aparecendo uma garrafa, da qual só mostram o gargalo com a cápsula. Durante o anúncio comecei a pensar que podia ser um anúncio de um vinho, mas a demorar tanto, pensei, não pode ser! A verdade é que é mesmo um anúncio a um vinho e da Região Demarcada dos Vinhos Verdes. Não, não é Casal Garcia, que se bebe com a Maria! Mas é sem dúvida um forte concorrente para beber com uma Lela… (Lela só porque rima com…).

O vinho anunciado está inserido num tipo de vinho que é normal NÃO vermos à mesa, a não ser, durante as férias de Verão (no Algarve, por exemplo) ao passar junto a uma mesa de “Bifes”. É também muito apreciado por estes nossos turistas outro tipo de vinho que é normal NÃO vermos à mesa, como um Mateus Rose ou um Lancers. A questão que se coloca é: Porque é que os “Bifes” gostam, sendo eles os que vêm dos países frios??? Talvez pela mania do “Tuga” querer sempre ser aquilo que não é. Ou será puro preconceito? Para mim, são estes vinhos, como mostra o anúncio, que propiciam momentos descontraídos e de relaxe nestes fins de tarde que a Primavera já nos tem dado este ano. Talvez as pessoas não saibam é adequar cada vinho a uma situação ou então não estão para relaxar.

Bom, mas é de vinhos que quero escrever! Este tipo de vinhos são um fenómeno, vendem aos milhões e têm durante um curto período de tempo uma frescura e uma simplicidade difícil de ter noutros vinhos.
O que está na moda é ter de dizer “obrigatoriamente” qualquer coisa sobre o vinho que está à mesa. Sendo a Indústria cervejeira também tão antiga e cheia de história, porque é que quando estamos a beber uma imperial não dissertamos um pouco sobre a sua bolha e o aroma. Será a cerveja menos nobre? O bom que estes vinhos têm é precisamente o contrário do que estamos habituados a procurar num vinho, a simplicidade de uma bebida refrescante. Como acontece com as rolhas este é o nosso património, temos o dever de o proteger e estou convicto que não é preciso esforço para isso!
Vinho: Gazela (s/ data de colheita)

Região: Vinhos Verdes

Produtor: Sogrape

Aspecto: Cor citrina muito leve com ligeiro desprendimento de gás.

Aroma: Fresco e citrino com notas doces, que fazem lembrar a casta loureiro, e de fruta verde.

Paladar: Acidez bem equilibrada com a doçura, leve com agulha que aumenta a sensação de frescura.

Apreciação Global: É um vinho simples e tecnológico, sem arestas que, de certeza, “Sabe bem com a vida”.

Nota: 14

quinta-feira, maio 19, 2005

Vinho: Monte da Penha, Reserva, 2001

Região: Alentejo, Portalegre

Produtor: Francisco Fino

Cor: Cor rubi, quase concentrado , já com tons de envelhecimento;

Nariz: Intenso, caixa de cigarros fundida com frutos vermelhos;

Boca: Super ataque e bom volume. Boa imtesidade de aroma na retronasal, taninos a aparecerem no fim de prova bem redondos, seguidos de amargor talvez excessivo.

Apreciação Global: Um vinho com muita classe e sobretudo muito equilíbrio;

Nota: 17,5

Rolhas, Portugal e afins...

... Faz agora uma semana que eu e outros enólogos portugueses estivemos como júris no International Wine Chalenge, em Londres. Apesar de ter provado "grandes bombas", ter tido bons momentos e também "pegas" de prova com provadores de todo o mundo, há uma situação que não me sai da cabeça. Um deste enólogos portugueses estava numa mesa de prova onde apareceu um vinho "rolhado", expressão utilizada frequentemente de forma ligeira para descrever o aroma dos cloroanisois (TCA, TeCA e PCA), no qual ele, muito bem, utilizou um termo técnico bem mais apropriado, advocando que cheirava a TCA (o cloroanisol de maior relevo). Os restantes provadores utizaram a expressão "it's corked", tendo a infelicidade do vinho apresentar um gargalo para cápsula de metal, sendo portanto impossível que a origem do aroma fosse a rolha. O nosso caro enólogo tuga fez questão de "gozar o prato" e de lhes demonstrar o evidente, seguido-se um pequeno sermão sobre a leviendade com que se utiliza o termo "rolhado" e que os termos TCA ou mofo serão, talvez, mais adequados.

Porquê toda esta defesa do "bom nome" da rolha?


Portugal possui cerca de 33% dos montados de sobreiro do Mundo e produz 52% da cortiça mundial seguido pela Espanha com 23% e 32%, respectivamente. Logo, qualquer ataque à rolha é um ataque frontal à indústria corticeira portuguesa e por acréscimo a Portugal.
É um facto que existem problemas de contaminação de vinhos por rolhas que têm TCA. O número apurado ronda os 2 a 5%, segundo várias fontes. No entanto, produtores como a Amorim (o maior produtor de rolhas a nível mundial) afirmam que nos testes internos o valor de rolhas contaminadas ronda os 0,45%.

É também um facto que existem outras fontes de TCA no processo de produção. As barricas podem ser uma grande fonte de TCA se não existir o cuidado de não utilizar detergentes clorados. Todas as madeiras da adega, cinchos de prensas, telhados em madeira, podem ser fonte de contaminação. Deste modo, é possível que muitos dos vinhos com TCA não encontrem a sua origem na rolha.

A presença deste aroma a mofo criou o pretexto para o aparecimento de vedantes alternativos que garantem inoquidade: os vedantes plásticos (polymer stoppers), as cápsulas metálicas (srew caps) e também o vedante em vidro, este último com pequena incidência.

Os vedantes plásticos foram tão rapidamente abraçados como abandonados por alguns países do novo mundo vitícola, tal como a Austrália. Este país acabou por adoptar, baseado em estudo científicos, a cápsula metálica para tintos jovens, brancos e rosés; e a rolha técnica ou a rolha para os restantes.

No entanto, o consumo dos polymer stoppers é crescente na velha Europa.

Quanto a mim, sou mais fã das rolhas. Quer por ser português(ok, é uma razão um pouco facciosa), quer por achar que o produto "vinho" vende mais do que apenas o líquido; vende também o acumular de tradições e de costumes. Já o afamado D. Perignon usava a rolha de cortiça e ainda não existia o dito "novo mundo" e todos os seus países. A rolha, além de ser um produto natural, acompanha o conceito de vinho engarrafado desde sempre e tenho pouca vontade de o beber quer com cápsulas, polímeros, ou - não tarda nada - dentro de uma lata.

Resumindo e concluindo: espero que as rolhas se mantenham para quando estiver sentado à lareira com a namorada, mulher ou amigos, e chegar o alegre momento de beber um Douro (como quem diz outro qualquer), onde o som de abertura seja um tradicional "pop" em vez de um esfregulhar metálico "acocacolado" de uma cápsula.

PS. Não posso deixar de dar os parabéns à Herdade da Malhadinha pelo seu Ouro e Red Portuguese Trophy, no vinho Malhadinha, no seu primeiro ano de produção.

segunda-feira, maio 16, 2005

"Os magníficos Borgonha"

Nestas últimas semanas esteve nos “mupis” do País uma campanha a um vinho da Região do Dão e outro do Alentejo. Tanto uma como outra, são já duas marcas bem conhecidas dos enófilos. O vinho publicitado do Dão, um colheita seleccionada, é já um dos vinhos desta região que em poucos anos atingiu o patamar de referência na gama de vinhos dos €3. Sobre a Região Demarcada do Dão, em 1900, Cincinato da Costa no Portugal Vínicola, escrevia que esta região, uma das preveligiadas do Reino, era capaz da produção de vinhos magníficos, capitosos e aromáticos de longa e segura conservação, semelhantes aos bons da Borgonha. Nos últimos tempos o Dão foi inserido no grupo das regiões mal amadas do País, talvez pela hegemonia do Alentejo e do Douro, ou talvez pela influência que as cooperativas da região tiveram durante cerca de 30 anos, provocando uma quebra muito significativa na qualidade dos vinhos que sempre foram tidos como referência de qualidade e longevidade. Um hiato, que afastou esta região do gosto do consumidor moderno, tem ainda hoje um perfil de vinhos caracterizado pela dureza da acidez e a sensação de secura transmitida pelos taninos verdes (como quando trincamos uma banana verde). Terá sido negligência por parte de quem geria a região, ou talvez a simples ignorância dos factores determinantes de maturação das uvas e possivelmente práticas enológicas e de vinificação inadequadas ao estado de maturação da matéria prima. A verdade é que, no Dão existem e sempre existiram vinhos “haute de gamme” como os magníficos da Borgonha, o problema sempre esteve na gama de entrada! O vinho publicitado é sem dúvida um exemplo de sucesso, vinho proveniente de uma região mal amada, que arrisca colocar no mercado colheitas bastantes recentes, para uma região que normalmente obriga a reservar os seus vinhos na cave, devido à rusticidade dos taninos que vem apresentando. Será este vinho, um DÃO!
por Hélder Cunha
Vinho: Quinta de Cabriz Colheita Seleccionada 2003

Região: Dão – Carregal do Sal

Produtor: Dão Sul

Aspecto: Cor ruby ligeira

Aroma: Simples, algum fumado e funcho

Paladar: É ligeiro, muito macio, com algum volume e um final doce com uma acidez capaz de o segurar.

Apreciação Global: É um Dão fora do normal, está pronto a beber e não tem qualquer secura. É um vinho simples que prima pela sua maciez e elegância.

Nota: 14,5

por Hélder Cunha